Quatro vezes por semana, iranianos entram em uma sala virtual que não aparece em nenhum mapa. Não há prédio, placa nem sino. Há uma plataforma privada e fechada onde se adora, se ora e se estuda a Bíblia.
A emissora cristã SAT-7 oferece quatro sessões semanais ao vivo de adoração e ensino pela internet, em plataformas seguras e privadas, disse John Cerniglia, presidente da SAT-7 USA, ao Mission Network News. Segundo o Guiame, que publicou o relato em 29 de outubro, cada encontro reúne de 30 a 50 pessoas.
A SAT-7 também leva ao Irã 250 episódios de televisão por semana sobre Jesus. Outras 70 pessoas procuram o ministério todos os dias pela internet para aprofundar a compreensão do Evangelho.
Por que a igreja foi parar na tela
No Irã, quem deixa o islamismo para seguir Cristo é tratado pelo Estado como ameaça. Os convertidos, vistos como “apóstatas”, carregam o maior peso da perseguição, segundo a Christian Solidarity International, organização cristã de direitos humanos com sede em Zurique.
As igrejas históricas, armênias e assírias, são reconhecidas, mas funcionam sob condições estritas. Não podem celebrar em persa nem evangelizar muçulmanos, e a proibição do persa existe justamente para que iranianos de língua persa não entendam esses cultos nem se juntem às comunidades. Sem uma igreja aberta a eles, os convertidos se reúnem em casas. Segundo a CSI, frequentar ou liderar uma igreja doméstica é considerado crime contra a segurança nacional, com penas de até 10 anos. As forças de segurança costumam invadir as reuniões e apreender Bíblias.
Não há censo confiável. As estimativas vão de 300 mil a 1 milhão de cristãos no país, a maioria na igreja clandestina, segundo o Mission Network News. A Portas Abertas coloca o Irã em 10º lugar na Lista Mundial da Perseguição 2026.
Cristãos iranianos encontram nos cultos online uma forma de fortalecer a fé em meio à perseguição. (Foto representativa: Rafiee Artist/Unsplash) Foto: Guiame
Dentro da sala virtual
A porta não fica aberta para qualquer um. Panayiotis Keenan, da SAT-7 PARS, o canal em persa da emissora, explicou ao MNN que quem liga com perguntas pode ser conduzido a encontros seguros por Zoom. Depois de uma checagem cuidadosa para garantir que não são informantes do governo, algumas pessoas são acolhidas em comunidades cristãs.
Há também um encontro diário. Depois que a internet foi cortada em 8 de janeiro, a SAT-7 PARS lançou o “Standing in the Gap” (Na brecha). São sessões de uma hora, de segunda a sexta, das 14h30 às 15h30 no horário do Irã, com oração, louvor e leituras bíblicas. Uma equipe de apoio acompanha cada sessão, e o link do Zoom é enviado todos os dias por WhatsApp e redes sociais.
A emissora afirma chegar a cerca de meio milhão de telespectadores por dia no Irã e ouvir de uns 50 deles diariamente. O canal em persa transmite 24 horas por dia, por satélite, direto para dentro do país, sem passar pela censura do governo. Para Cerniglia, o satélite segue sendo a via mais confiável, porque o governo bloqueia a internet com facilidade.
Ellen, telespectadora da SAT-7, escreveu que vinha de dias de tristeza e de perguntas sem resposta e que, depois de três dias de webinars, se sentia renovada e quase de volta à vida normal. Fatemeh, cristã iraniana ouvida pela Open Doors do Reino Unido, não esconde o custo. As reuniões online têm seus desafios, da conexão ruim ao risco de vigilância, mas, diz ela, “são vitais para nós”. Em abril, durante o primeiro apagão, a Open Doors relatou que cristãos evitavam até as palavras “oração”, “igreja” e “comunhão” nas conversas.
“A realidade da guerra está aproximando as pessoas de Cristo”, afirma Cerniglia. Ele conta que os iranianos lhe dizem que sacrifício e sofrimento não são passageiros e que a própria Bíblia ensina a esperá-los. O mesmo Evangelho que esses grupos abrem na tela registra a promessa de Jesus em Mateus 18:20: onde dois ou três estiverem reunidos em seu nome, ali ele está no meio deles.
Dois apagões e uma internet que volta aos poucos
A conexão nunca foi garantida. As autoridades cortaram a internet em 8 de janeiro, durante protestos contra o governo, e em 28 de fevereiro veio um novo corte quase total, após o início da guerra envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos. O segundo apagão durou 88 dias, e a conexão internacional começou a voltar em 26 de maio, informou o Iran International.
Nesse período, os cristãos ficaram sem pastores no exterior, sem cultos online e sem cursos bíblicos, relata a Open Doors EUA. Rahab, iraniana, descreveu a volta do sinal: na noite anterior, conseguira assistir a um sermão em persa pelas redes sociais e se sentia revitalizada. A organização informa que os nomes foram alterados por segurança.
Afshin, líder de igreja no Irã, falou de uma onda de depressão trazida pelo apagão e pela morte em massa de manifestantes em janeiro. Ele diz que voltar a aparecer online é “remédio temporário”. A pressão não diminuiu. “Durante o cessar-fogo, as ações de segurança contra cristãos aumentaram”, contou Ahmad, convertido que vive no nordeste do país. Analistas e ativistas temem uma intranet nacional que isole os iranianos da rede global.
A lista de “hostis” e a versão do governo
Em 15 de julho, a Article 18, organização que documenta a perseguição a cristãos no Irã, informou que o Ministério da Inteligência incluiu emissoras cristãs em uma lista de mídia “hostil”. Constam SAT-7, Nejat, Seven e Mohabat TV, ao lado de BBC Persian e Iran International, além de jornalistas e opositores como Reza Pahlavi, Masih Alinejad e Shirin Ebadi. O ministério afirma que qualquer “cooperação”, inclusive o envio de fotos ou vídeos, pode levar a processo sob a lei de espionagem criada após a guerra de 12 dias com Israel, em 2025. Para a Open Doors, quem assiste, contata ou compartilha esse conteúdo pode passar a temer a acusação.
Pelo menos cinco cristãos já foram condenados sob essa lei, com penas que somam mais de 40 anos de prisão. Fred Petrossian, da Article 18, explica que “hostil”, na linguagem oficial, é quem o governo vê como combatente do sistema. Para ele, o conceito é vago e, na prática, “não tem limites”.
A versão das autoridades, registrada pela Article 18, é que esses cristãos são “mercenários do Mossad”. Segundo o Ministério da Inteligência, teriam sido “treinados no exterior” por igrejas dos Estados Unidos e de Israel e agiriam “sob o disfarce do movimento sionista cristão de evangelização”. Mais de 50 cristãos foram detidos no mês seguinte à guerra de 2025 com essa acusação.
Edwin Abnous, diretor da Heart4Iran, cuja Mohabat TV transmite ao Irã há 20 anos, diz que o regime alega que os canais pregam teologia sionista cristã. Segundo ele, qualquer menção a Israel, frequente no Antigo Testamento, leva a rótulo de espionagem. Abnous chama a lista de violação da liberdade religiosa e espera menos contato de dentro do país: “Nosso público será muito mais cuidadoso”.
O que vem agora
O Parlamento iraniano analisa um projeto de regulação da internet. O artigo 6 permitiria suspender ou restringir o acesso por ordem de autoridades judiciais ou de outros órgãos competentes, sem dizer quais. O Iran International noticiou o texto em 28 de outubro.
Enquanto isso, as sessões continuam. Cerniglia termina o relato com um pedido: “Peçam em oração para que Deus seja refúgio, proteção e provisão para nossos irmãos e irmãs no Irã”.