Noah’s Ark Hunters Testing for Wood After Drilling Mission - Newsweek featured image Foto: Newsweek
Ainda sem comprovaçãoAssunto em investigação. Mostramos o que já se sabe e o que ainda falta provar.
Nas encostas acentuadas do distrito de Doğubayazıt, na província de Ağrı, no leste da Turquia, uma equipe internacional de arqueólogos, geólogos e cientistas do solo abriu perfurações profundas no interior de uma elevação de 157 metros de comprimento conhecida como Formação de Durupınar. A estrutura, situada a cerca de 30 quilômetros ao sul do Monte Ararate, atrai a atenção de pesquisadores e fiéis há mais de seis décadas devido ao seu contorno que se assemelha ao casco de um grande navio soterrado. Durante os trabalhos de campo de 2026, amostradores mecânicos retiraram do fundo da formação pequenos fragmentos de madeira queimada extraídos a quase nove metros de profundidade.
A revelação sobre o achado ocorreu no dia 15 de outubro de 2026 durante o 8º Simpósio Internacional do Monte Ararate e da Arca de Noé, realizado na cidade de Ağrı. Na ocasião, o professor Cenker Atila, da Universidade Sivas Cumhuriyet, docente encarregado da coordenação arqueológica do projeto autorizado pelo governo turco, informou publicamente que a equipe havia recuperado a madeira carbonizada. Os fragmentos foram encaminhados imediatamente para laboratórios especializados, onde passam por testes de datação por carbono 14, análise microscópica de espécie vegetal e exames para verificar a presença de resíduos de piche e seiva antiga. Até o momento, nenhum resultado de laboratório foi publicado ou submetido à revisão independente de pares.
A presença de madeira no subsolo da formação representa um avanço importante nas investigações físicas do local, mas os próprios responsáveis pelo projeto mantêm uma postura de cautela científica. O pesquisador Andrew Jones, fundador da organização americana Noah's Ark Scans, que financia e integra os trabalhos em parceria com pesquisadores turcos, enfatizou à Newsweek que a equipe ainda não estabeleceu a idade do material nem pode afiançar que a madeira pertença a uma construção antiga. Segundo Jones, a hipótese de que o material seja parte da embarcação descrita na Bíblia está sendo testada, mas existe a possibilidade real de que a madeira carbonizada seja fruto de uma fogueira acesa por pastores que usaram a depressão do terreno como abrigo em séculos passados.
As perfurações e a descoberta do material carbonizado a 9 metros de profundidade
As operações de amostragem na Formação de Durupınar intensificaram-se no segundo semestre de 2026 com o uso de um equipamento robotizado subterrâneo conhecido como drone Gopher. O dispositivo foi desenhado para penetrar o solo e recolher testemunhos de sondagem em locais inacessíveis à escavação manual. Durante as primeiras perfurações a uma profundidade de quatro a cinco metros, a broca do equipamento quebrou ao atingir uma camada extremamente dura. Os técnicos levantaram duas possibilidades para a resistência encontrada: um bloco de rocha rígida incrustado no solo ou uma camada de madeira petrificada e altamente mineralizada.
Ao avançar com novas perfurações que atingiram até 20 metros de profundidade no interior do contorno em forma de barco, a equipe recolheu amostras orgânicas ricas e os fragmentos de madeira queimada situados a quase nove metros da superfície. Em comunicado distribuído pela agência de notícias İHA e repercutido pelo jornal The Jerusalem Post, o professor Cenker Atila explicou que os exames laboratoriais na França devem entregar os primeiros resultados de carbono 14 em algumas semanas, enquanto as análises mais detalhadas conduzidas em universidades turcas exigirão cerca de três meses. A equipe pretende compilar os dados físicos e geofísicos em um relatório completo previsto para o primeiro semestre de 2027.
A condição carbonizada da madeira chamou a atenção dos pesquisadores pela forma como o fogo afeta a preservação orgânica. Quando a madeira é submetida a altas temperaturas e se transforma em carvão, a sua taxa de decomposição biológica no solo cai para menos de 1% ao ano, permitindo que a estrutura química sobreviva por milênios sob o solo úmido. Os cientistas trabalham com a hipótese de que a madeira possa ter sido queimada por ação humana intencional, por um raio ou por atividade vulcânica antiga na região do Ararate.
Estrutura interna em três níveis e a hipótese do fogo nas investigações
Além da coleta de amostras físicas, a expedição de 2026 apresentou dados atualizados de exames geofísicos de subsolo. O cientista Khosrow Bakhtar, especialista em radares de penetração no solo e fundador da Bakhtar Research and Engineering LLC, utilizou um sistema de radar configurado para mascarar sinais geológicos convencionais. De acordo com os relatórios apresentados no simpósio de Ağrı, as varreduras revelaram padrões estruturais organizados com paredes, corredores e câmaras internas que não correspondem à assinatura típica de uma rocha homogênea sólida. "Esta é a descoberta mais importante dos meus 45 anos de carreira. Não tem relação com a geologia, porque mascaramos todas as características geológicas", disse Bakhtar.
Os exames de radar e a análise de resistividade elétrica indicaram a existência de uma formação disposta em três níveis sobrepostos no subsolo. O professor Cenker Atila ligou o achado ao texto bíblico, que manda fazer a arca com andares baixo, segundo e terceiro (Gênesis 6:16). "Nos nossos Livros Sagrados, a Arca de Noé tinha três níveis; nos nossos estudos de radar, também identificamos uma formação com três níveis", disse ele à imprensa no simpósio. As perfurações realizadas no interior da estrutura não identificaram rocha matriz ou calcário sólido, contrastando com o padrão das formações rochosas circundantes.
Para verificar a validade das anomalias, os pesquisadores abriram 12 furos de sondagem dentro da área em formato de barco e quatro furos de controle na área externa. O objetivo é comparar a composição química, a mineralogia e os níveis de matéria orgânica do interior da estrutura com o solo natural do vale. Se o material interno for idêntico ao fluxo de terra que desceu das montanhas, a origem natural da Formação de Durupınar ganha força; se houver diferenças químicas que a geologia local não explica, a hipótese de uma estrutura construída ganha respaldo.
O debate de seis décadas: de fotos aéreas em 1959 às análises geológicas
A Formação de Durupınar entrou para o mapa do debate arqueológico e bíblico em 1959, quando o capitão da Força Aérea Turca İlhan Durupınar identificou o contorno em formato de navio ao examinar fotografias aéreas de mapeamento cartográfico. Na década de 1980, o explorador amador norte-americano Ron Wyatt popularizou o sítio ao afirmar que a estrutura continha restos da embarcação de Noé, petrificada ao longo dos milênios. A alegação atraiu expedições independentes, mas gerou forte ceticismo na comunidade científica.
Em 1996, um estudo de referência publicado no *Journal of Geoscience Education* pelos geólogos Lorence Collins e David Fasold concluiu que a Formação de Durupınar é uma estrutura rochosa estritamente natural. Os pesquisadores afirmaram que a forma de barco resultou do dobramento de camadas de calcário e argila moldadas por fluxos de lama e processos erosivos. Collins e Fasold defenderam que os supostos remendos de madeira e estruturas de ferro apontados por exploradores anteriores eram apenas concentrações naturais de limonita e minerais de ferro.
Outros geólogos, como Andrew Snelling, atribuíram a elevação a movimentos tectônicos decorrentes de terremotos registrados na região em 1948 e 1978, nos quais blocos de rocha subjacente teriam sido empurrados para a superfície. Em 2023, análises de solo realizadas pela Universidade Técnica de Istambul e apresentadas pelo vice-reitor da Universidade İbrahim Çeçen de Ağrı, professor Faruk Kaya, indicaram que amostras de rocha e solo do local tinham entre 3.500 e 5.000 anos. O próprio professor Kaya ponderou na época que a datação do solo não permitia afirmar a presença de um navio no local.
O papel do carbono 14 e os testes de resina e piche em laboratório
A análise de carbono 14 aplicada às novas amostras de madeira busca determinar a data exata em que a árvore original deixou de absorver carbono da atmosfera. Como explica o laboratório especializado Beta Analytic, organismos vivos mantêm um equilíbrio constante de carbono 14 com a biosfera; quando a planta morre, a troca cessa e o isótopo radioativo passa a decair a um ritmo conhecido. Ao medir a quantidade restante de carbono 14 nos fragmentos queimados de Durupınar, os cientistas poderão saber se a madeira pertence à Antiguidade ou a um período medieval ou moderno.
Além da datação por radiocarbono, os laboratórios analisam a presença de piche e resinas vegetais nas amostras. O teste é considerado relevante pelos pesquisadores porque busca correlacionar o achado físico com as especificações descritas nos textos antigos sobre o método de calafetagem de embarcações. No entanto, cientistas lembram que a identificação de madeira antiga, por si só, não prova a existência de uma navegação de grandes proporções, pois depósitos orgânicos e madeira de uso doméstico se acumulam naturalmente em terrenos de encosta.
A verificação das amostras exigirá a publicação dos relatórios com a especificação da profundidade exata da coleta, as fotomicrografias da estrutura celular da madeira e a análise isotópica. Sem essa publicação em periódicos científicos sujeitos à revisão por pares, as alegações sobre a madeira de Durupınar permanecem na categoria de hipóteses em fase de teste.
A relação com o relato de Gênesis e os próximos passos da pesquisa
Para o leitor que estuda as Escrituras, a Formação de Durupınar chama a atenção pela correspondência de dimensões e localização geográfica com o relato bíblico. O livro de Gênesis registra que a arca foi construída com madeira de gofer e revestida com betume por dentro e por fora (Gênesis 6:14). O texto sagrado narra ainda que, ao final do dilúvio, a embarcação repousou sobre os montes de Ararate (Gênesis 8:4).
A extensão calculada em aproximadamente 157 metros para a Formação de Durupınar equivale a cerca de 300 côvados antigos, medida atribuída à arca no texto bíblico. No entanto, a imprensa e os grupos de pesquisa reforçam que a coincidência métrica e o formato do relevo não constituem prova arqueológica sem a confirmação de materiais trabalhados por mãos humanas, como tábuas encaixadas, juntas ou ferramentas.
O projeto liderado pela Universidade Sivas Cumhuriyet e pela Noah's Ark Scans prevê a continuidade dos exames de laboratório ao longo de todo o inverno no hemisfério norte. Caso as autorizações governamentais sejam renovadas pela Turquia, uma segunda temporada de campo está planejada para 2027 para aprofundar os furos de sondagem. A equipe declarou que não planeja escavações em grande escala no momento, concentrando os esforços no rigor dos exames moleculares e geofísicos que possam esclarecer a verdadeira origem do material extraído das profundezas do solo.