Jesus "apareceu vivo no terceiro dia": novo estudo reabre o mistério do texto de 2.000 anos escrito por um historiador judeu
Escrito por volta do ano 93, o trecho mais polêmico de Flávio Josefo chegou até nós em quatro versões diferentes. Um pesquisador espanhol comparou todas para saber o que o historiador realmente disse.
Ainda sem comprovaçãoAssunto em investigação. Mostramos o que já se sabe e o que ainda falta provar.
Nesta semana, jornais como o britânico Daily Mail e o americano New York Post noticiaram que um texto de 2.000 anos traria um relato escrito da ressurreição de Jesus. A notícia tem base real, mas não se trata de um achado. Não apareceu pergaminho, papiro ou inscrição. O que existe é um estudo de Jesús Fernández-Pedrera Correa, pesquisador independente espanhol, publicado em 15 de agosto de 2026 como preprint, ou seja, um trabalho disponível para leitura que ainda não passou pela avaliação de outros especialistas.
O texto que ele estuda é conhecido há séculos e é provavelmente o parágrafo mais discutido de toda a história antiga. Chama-se Testimonium Flavianum, "o testemunho de Flávio", e está nas Antiguidades Judaicas, livro 18, parágrafos 63 e 64. Para entender por que um estudo sobre ele vira manchete, é preciso saber quem foi o autor, o que o trecho diz e por que os estudiosos brigam por ele há quatrocentos anos.
Quem foi Josefo
Yosef ben Matityahu nasceu em Jerusalém por volta de 37 d.C., numa família de sacerdotes. Quando os judeus se revoltaram contra Roma, em 66, ele comandou as forças rebeldes na Galileia. Cercado na cidade de Jotapata em 67, rendeu-se aos romanos e previu ao general Vespasiano que ele seria imperador. A previsão se cumpriu, Josefo foi libertado e adotou o nome da família imperial: Flávio.
Em Roma, escreveu as obras que são até hoje a principal fonte sobre a Judeia do primeiro século. A Guerra Judaica, terminada por volta de 75, narra a revolta e a destruição do templo em 70. As Antiguidades Judaicas, concluídas por volta de 93 ou 94, contam a história do povo judeu desde a criação até as vésperas da guerra. É nelas que aparecem Herodes, Pôncio Pilatos, João Batista, o sumo sacerdote Anás e Tiago, irmão de Jesus. Quem lê os Evangelhos e depois lê Josefo reconhece o cenário: os mesmos lugares, os mesmos governantes, as mesmas tensões.
Josefo nunca se tornou cristão. Escrevia como judeu, para leitores gregos e romanos, defendendo a dignidade do seu povo depois de uma guerra perdida. É exatamente isso que torna importante o que ele diz sobre Jesus, e é isso que torna estranho o texto que chegou até nós.
O que diz o trecho
Na forma preservada em grego, o parágrafo apresenta Jesus como um homem sábio, "se é que se deve chamá-lo de homem", que fez obras surpreendentes e ensinou pessoas que recebiam a verdade com prazer. Diz que ele atraiu muitos judeus e muitos gregos. Em seguida vem a frase que provoca o debate: "ele era o Cristo". O texto conta que Pilatos o condenou à cruz por acusação dos líderes do povo, que os que o amavam não o abandonaram, e que ele lhes apareceu vivo no terceiro dia, como os profetas haviam anunciado. Termina dizendo que a "tribo" dos cristãos, que tem esse nome por causa dele, não desapareceu.
O Testimonium Flavianum num manuscrito grego das Antiguidades Judaicas. Foto: Oxford University
Lido assim, parece uma confissão de fé. E é aí que mora o problema. Orígenes, escritor cristão do século III que conhecia bem as obras de Josefo, registrou duas vezes que Josefo não aceitava Jesus como o Cristo. Se o texto que Orígenes leu dissesse com todas as letras "ele era o Cristo", seria difícil escrever isso.
Três posições sobre o mesmo parágrafo
Desde o século XVI os estudiosos se dividem em três grupos. O primeiro considera o trecho inteiramente autêntico. O segundo o considera inteiramente inventado por copistas cristãos; o pesquisador Ken Olson chegou a propor que o autor seria o próprio Eusébio de Cesareia, o primeiro a citá-lo, no começo do século IV.
A posição mais comum hoje fica no meio: autenticidade parcial. Josefo teria escrito um parágrafo neutro sobre Jesus, e copistas cristãos acrescentaram ou retocaram as frases mais teológicas. Os defensores dessa leitura apontam que expressões como "homem sábio" e "obras surpreendentes" combinam com o vocabulário de Josefo e soam pouco cristãs, enquanto "ele era o Cristo" destoa do resto.
Há um segundo argumento, mais forte, e ele vem de outro livro das Antiguidades. No livro 20, Josefo conta que em 62 o sumo sacerdote Anás, filho do Anás dos Evangelhos, mandou apedrejar "o irmão de Jesus, chamado Cristo, cujo nome era Tiago". Quase todos os especialistas aceitam essa frase como autêntica. Ela fala de Jesus de passagem, como alguém que o leitor já conhece, o que sugere que Josefo o tinha apresentado antes. O lugar natural para isso é justamente o livro 18.
Por que os manuscritos não resolvem
A dificuldade é que não temos o que Josefo escreveu, só cópias de cópias. A cópia grega mais antiga do livro 18 com o parágrafo, guardada na Biblioteca Ambrosiana, em Milão, é do século XI, mil anos depois do autor. Antes dela, o texto aparece citado por Eusébio, por volta de 320, já na forma atual. Entre Josefo e Eusébio passaram-se mais de duzentos anos sem nenhuma testemunha.
Os manuscritos também mostram como os copistas mexiam no texto. Uma cópia da Guerra Judaica do começo do século XV, conhecida como Codex Vossianus, traz o Testimonium inserido num livro onde ele nunca esteve, ao lado da história de Pilatos. Ninguém defende que Josefo o tenha escrito ali. É um exemplo visível de como um parágrafo pode viajar dentro de uma tradição de cópias.
Como o grego não basta, Fernández-Pedrera Correa compara quatro linhas de transmissão, quatro caminhos diferentes pelos quais o parágrafo chegou até nós. Além do grego, ele examina a citação em latim de Jerônimo, por volta de 392; um resumo em árabe na crônica de Agápio de Hierápolis, bispo do século X; e uma versão em siríaco na crônica de Miguel, o Sírio, patriarca do século XII. As versões árabe e siríaca chegaram à atenção dos estudiosos em 1971, quando o pesquisador israelense Shlomo Pines as publicou.
As três linhas fora do grego tratam a frase sobre o Messias da mesma forma. Jerônimo escreve que Jesus "era tido como o Cristo". Miguel, o Sírio, diz que "pensava-se que ele era o Messias". Agápio diz que "talvez" ele fosse o Messias. Para o autor, quando testemunhas de línguas e séculos diferentes concordam contra o grego, a explicação mais simples é que o grego foi alterado. Esta é, segundo ele, a única intervenção cristã que a história do texto permite demonstrar com alguma segurança.
A ressurreição entra na conclusão com mais cautela, e é aqui que as manchetes exageraram. Na versão árabe, a aparição depois da crucificação é apresentada como algo que os discípulos contaram: eles relataram que Jesus lhes apareceu três dias depois e estava vivo. O autor considera plausível que Josefo tenha registrado o que os seguidores de Jesus diziam ter visto, como faz em outras passagens com crenças de grupos judeus sem aderir a elas, e que copistas tenham transformado esse registro numa afirmação direta. Ele mesmo reconhece que as versões sobreviventes não permitem reconstruir palavra por palavra o que Josefo escreveu.
As objeções
Dois cuidados ajudam a medir o peso do estudo. A pesquisadora Alice Whealey, que estuda o Testimonium há décadas, defende que as versões árabe e siríaca descendem de uma mesma tradução siríaca da obra de Eusébio. Se for assim, elas não são duas testemunhas independentes de Josefo, mas duas netas do mesmo texto, e a concordância entre elas pesa menos. A própria Whealey, porém, também conclui que a forma original dizia algo como "ele era tido como o Cristo", o que vai na mesma direção do novo estudo.
O segundo cuidado é que o debate segue vivo nos dois sentidos. Em 2025, T. C. Schmidt publicou pela Oxford University Press um livro defendendo que o trecho é essencialmente autêntico, quase sem retoques. Do outro lado, há estudiosos que continuam considerando o parágrafo quase todo acrescentado. Um preprint de um pesquisador independente entra nessa conversa como uma contribuição a ser examinada, não como a palavra final.
O que isso significa para quem lê a Bíblia
Se a hipótese estiver certa, ela não prova a ressurreição, e o autor não afirma isso. Um historiador que registra o que um grupo afirma ter visto não está atestando que aconteceu. O que o estudo sugere é outra coisa, historicamente interessante: que um historiador judeu, escrevendo em Roma uns sessenta anos depois da crucificação, sabia que os discípulos afirmavam ter visto Jesus vivo depois da morte.
Isso converge com o que o Novo Testamento já registrava décadas antes. Por volta do ano 55, Paulo escreveu aos coríntios a lista de pessoas a quem Jesus apareceu, incluindo "mais de quinhentos irmãos de uma só vez, dos quais a maior parte ainda vive" (1 Coríntios 15:3-8). Ou seja, a afirmação dos discípulos é anterior aos Evangelhos e era conhecida dentro e fora da igreja.
Josefo também não é a única voz de fora. Por volta de 116, o historiador romano Tácito escreveu que o nome "cristãos" vinha de Cristo, executado por Pôncio Pilatos no tempo do imperador Tibério. Poucos anos antes, Plínio, o Jovem, governador na Ásia Menor, descreveu ao imperador Trajano cristãos que se reuniam antes do amanhecer para cantar a Cristo "como a um deus". Nenhum deles era simpático à fé. É esse conjunto que leva a imensa maioria dos historiadores, crentes ou não, a tratar a existência e a crucificação de Jesus como fatos históricos.
O estudo de Fernández-Pedrera Correa não muda esse quadro. Ele propõe um retrato mais preciso de um parágrafo, e o próximo passo é ver como outros especialistas vão recebê-lo.