The wet-sifting facility of the Temple Mount Sifting Project in Jerusalem. Photo by Dave Gordon. Foto: Israel & Jewish News - JNS
Ainda sem comprovaçãoAssunto em investigação. Mostramos o que já se sabe e o que ainda falta provar.
Um estudo sobre uma impressão de selo em argila do período do Primeiro Templo, que pode ter ligação com um funcionário do relato bíblico do rei Josias, deve sair na Israel Exploration Journal até o fim de 2026, segundo Zachi Dvira, cofundador e diretor do Temple Mount Sifting Project.
O tamanho real da notícia é modesto. Existe um objeto achado em julho de 2025, uma leitura da inscrição divulgada pela equipe em 30 de julho daquele ano e uma apresentação preliminar em congresso. O artigo ainda não saiu: Dvira disse ao JNS que a equipe acabou de receber as correções pedidas na revisão por pares. A ligação com o personagem bíblico continua sendo uma possibilidade, não uma identificação estabelecida.
Duas palavras em hebraico antigo, gravadas em argila de 2.600 anos
O objeto é uma bula, o torrão de argila que recebia a marca de um selo. Bulas eram fichas de argila, metal mole ou cera com inscrição, usadas em documentação comercial e jurídica. Neste caso, as marcas no verso indicam que ela lacrava um saco ou recipiente de armazenamento, e ainda guarda uma impressão digital nítida, provavelmente do funcionário que a usou.
A epigrafista Anat Mendel-Geberovich e o próprio Dvira leram a inscrição, segundo a página do projeto, como “Pertencente a Yeda‛yah (filho de) Asayahu”. Na transcrição, “filho de” aparece entre parênteses e parte do primeiro nome entre colchetes, o que, pela convenção da epigrafia, indica elementos supridos pelo leitor. Dvira afirmou ao Times of Israel que quase todas as letras estão legíveis e que é apenas a segunda vez, em mais de 20 anos de projeto, que aparece uma bula com inscrição tão completa.
O achado foi quase um acaso. O arqueólogo Mordechai Ehrlich examinava um recipiente com ossos peneirados cerca de dois anos antes. A peça tinha cor de osso, mas ele percebeu que era argila e que havia escrita nela. Para ler as letras, a equipe usou fotografia RTI (Reflectance Transformation Imaging), que combina várias imagens com a luz em posições diferentes. Dvira também contou que o grupo costuma demorar para divulgar novidades, mas decidiu agir depressa porque a peça era inconfundível, havia uma especialista em escrita hebraica antiga no laboratório e a descoberta coincidiu com a véspera de Tisha B’Av.
A data vem da paleografia, o estudo do formato das letras. Pelo estilo da escrita, a bula pertence ao fim do período do Primeiro Templo, entre o final do século 7 e o início do século 6 a.C. É a época que antecede a queda de Jerusalém, por volta de 586 a.C.
The wet-sifting facility of the Temple Mount Sifting Project in Jerusalem. Photo by Dave Gordon. Foto: Israel & Jewish News - JNS
O que a Bíblia diz sobre Asaías, o servo do rei
O nome que despertou o interesse aparece no relato da reforma do rei Josias. Em 2 Reis 22:3-13, no 18º ano do reinado, o sacerdote Hilquias encontra no Templo o “livro da Lei”, o escrivão Safã o lê diante do rei, e Josias rasga as próprias vestes. Em seguida, ele envia uma comitiva a consultar o Senhor. Em 2 Reis 22:12 e no texto paralelo de 2 Crônicas 34:20, entre os enviados está Asaías, descrito como “servo do rei”. A delegação procura a profetisa Hulda (2 Reis 22:14), que anuncia desgraça sobre Jerusalém, mas poupa Josias de vê-la (2 Reis 22:15-20).
O livro não é identificado no texto, e o consenso acadêmico é que se tratava de uma cópia do Deuteronômio ou de um texto que depois passou a integrar o Deuteronômio. Josias morreu em Megido (2 Reis 23:29) e, poucas décadas depois, os babilônios destruíram a cidade e o Templo.
A forma “Asayahu” da bula tem a terminação “-yahu”, e o nome bíblico aparece como “Asaías”, com terminação mais curta. As versões curta e longa eram usadas de modo intercambiável na Antiguidade. O argumento do projeto é este: se o pai de Yeda‛yah era o servo de Josias, o dono da bula seria um filho do funcionário, possivelmente alguém também ligado à administração do Templo ou da casa real. O Armstrong Institute of Biblical Archaeology, que acompanha o tema, relata que os pesquisadores chamam a identificação de “altamente plausível”, e não de certa.
Por que o nome sozinho não fecha a questão
O próprio Dvira admite o limite. Ele disse ao Times of Israel que a equipe não tem certeza de que o Asayahu da bula seja o da Bíblia, mas lembrou que selos assim não eram objetos de gente comum. Para ele, como Asayahu é um nome incomum, há boa chance de que o selo tenha sido de um filho do conselheiro. Ao JNS, ele precisou que o selo seria do filho, não de Asaías.
O texto do Armstrong Institute lembra um critério da área: identificações desse tipo costumam exigir uma prova adicional, como a correspondência de duas gerações ou de um título. Aqui há só o nome do pai, sem título, e os versículos de Reis e Crônicas não citam o pai nem filhos desse Asaías. A própria Bíblia registra outros homens com o nome, como em 1 Crônicas 4:36 e 9:5.
Há ainda a questão de outro selo. Dvira lembrou que o nome Asayahu aparece numa bula com a expressão “servo do rei”, identificada há cerca de 20 anos. Como ela surgiu no mercado de antiguidades, sua autenticidade continua incerta. A apresentação do projeto no congresso arqueológico de junho de 2026 tratou do significado do termo “filho” (ben) e de uma análise estatística sobre a frequência de personagens bíblicos identificados em Jerusalém e Judá. Esses argumentos só poderão ser avaliados com o artigo.
Há um precedente de cautela. A epigrafista Christopher Rollston, da Universidade George Washington, defendeu repetidas vezes cuidado com identificações bíblicas baseadas em nomes. No caso da chamada bula de Isaías, ele observou que o nome e suas variantes eram comuns em Israel e Judá. Não encontrei comentário dele sobre a bula de Asayahu; a referência vale como método, não como crítica a este achado.
Terra sem camadas: o problema de onde a bula veio
A objeção mais antiga ao projeto vale para esta peça. A terra peneirada foi retirada do Monte do Templo sem supervisão arqueológica durante as obras da mesquita de Al-Marwani, as chamadas Estrebarias de Salomão. Segundo o Times of Israel, foram cerca de 400 caminhões, despejados fora da Cidade Velha. O projeto começou em 2004. Sem camadas, não se sabe a que profundidade ou ao lado de que estrutura cada objeto estava. O JNS resume: recuperar o objeto não devolve a camada original. Por isso, a datação se apoia em comparações com achados bem datados de outros lugares.
Os críticos têm nomes e argumentos. O professor Israel Finkelstein, da Universidade de Tel Aviv, disse em 2014 que é razoável supor que o entulho venha do Monte do Templo, mas que ele também poderia ter sido trazido de outros lugares. O professor Ronny Reich, que escavou extensamente a Cidade Velha, afirmou em 2018 que a terra, por estar fora de contexto, tem “valor limitado”. Yonathan Mizrachi, da organização Emek Shaveh, sustenta que a cerâmica sem estruturas tem pouquíssimo valor. Uma análise na revista Journal of Field Archaeology também notou que o projeto passou a ser examinado do ponto de vista da prática arqueológica justamente porque o material está fora de contexto.
Gabriel Barkay, cofundador que morreu em janeiro de 2026, respondia que, sem escavação possível no local, é melhor ter alguma informação do que nenhuma. Eilat Mazar, citada na mesma reportagem de 2014, defendia que tudo o que sai dali pertence ao Monte do Templo de algum modo. Finkelstein, naquela ocasião, reconheceu que um achado extraordinário, como uma inscrição, teria importância. Aqui, o texto está legível. O que falta é o lugar exato onde a peça esteve.
Dvira diz que a bula veio de um local de armazenamento. Ao Times of Israel, afirmou que o dono administrava depósitos no Monte do Templo, sem poder dizer se do tesouro do Templo ou do tesouro real. A equipe já havia achado outra bula, de [He]zelyahu filho de Imer, que associa a administração do tesouro do Templo. Imer é nome de família sacerdotal citada em Jeremias 20:1.
O que a manchete misturou
O título do JNS fala em achado “revolucionário”, mas a notícia é a previsão de uma publicação, não um resultado novo. O texto do jornal traz, no mesmo trecho, outros objetos que não devem ser confundidos com a bula de Asayahu. O selo do rei Ezequias foi recuperado em 2009 na peneiração da escavação de Eilat Mazar no Ofel, e não veio do solo do Monte do Templo, ponto que Dvira fez questão de destacar. O outro caso é um selo de pedra que o grupo suspeita ser ligado a Alexandre Janeu, governante hasmoneu. Pensado a princípio como do Primeiro Templo, ele foi reavaliado em laboratório como objeto do Segundo Templo; a identificação é preliminar e nada foi publicado. A reavaliação de datação se refere a esse selo de pedra, não à bula.
Há também uma diferença de calendário. Um resumo da organização IFCJ fala em publicação em dezembro; o JNS fala em fim de 2026. Vale a data mais ampla.
Para quem lê a Bíblia, o interesse é real, mas limitado. Os relatos de Reis e Crônicas descrevem uma administração com escribas, servos do rei e tesoureiros, e Jerusalém acumulou centenas de bulas desse tipo. Uma bula com nome comum nesse meio mostra que o mundo administrativo descrito nos textos existiu. Ela não prova que o Asayahu do selo seja o homem enviado a Hulda, e não acrescenta nada ao conteúdo do que Josias ouviu.
O projeto enfrenta ainda um problema prático. O orçamento anual é de cerca de 1,8 milhão de shekels. Com o dinheiro atual, Dvira estima 25 anos para concluir a publicação final, e cinco, com orçamento adequado. Ele calcula mais três a quatro anos de peneiração do solo restante. Enquanto isso, o artigo da bula é o primeiro teste público dos argumentos da equipe.
Pottery fragments and other material await examination at the Temple Mount Sifting Project in Jerusalem. Photo by Dave Gordon. Foto: Israel & Jewish News - JNS