Governo tira classificação livre dos Desenhos Bíblicos da Record e recomenda exibição só após as 20h; emissora pode pedir revisão
O bloco infantil da Record, de 2003, passou a 'não recomendado para menores de 12 anos'. É recomendação, não proibição, e a emissora pode pedir revisão.
Às 9h deste domingo, 1º de novembro, a grade da Record trazia o bloco Desenhos Bíblicos, seguido de Pica-Pau às 10h30. O programa está na grade do dia. O que mudou foi o selo: para o Ministério da Justiça, o bloco infantil deixou de ser livre para todas as idades.
A reclassificação do Record Kids: Desenhos Bíblicos saiu no Diário Oficial da União em 29 de outubro, segundo o Terra Brasil Notícias. Antes, a atração era livre e podia ser transmitida em qualquer horário. Agora é não recomendado para menores de 12 anos, e a recomendação é que seja exibido a partir das 20h na TV aberta. A justificativa da pasta cita “atos criminosos, drogas lícitas, violência e estigma ou preconceito”.
A reclassificação foi assinada por Eduardo de Araújo Nepomuceno, coordenador-geral de Políticas de Classificação Indicativa. O bloco, produzido pela Rede Record, estreou em 2003, vai ao ar aos domingos, das 9h às 10h30, e tem direção de Richard Rich. A decisão foi publicada também pelo ContraFatos, que repete os mesmos dados.
Recomendação, não proibição: o que o selo muda e o que não muda
A classificação indicativa é um aviso às famílias, não uma ordem de censura. .
Desde 2016, uma decisão do Supremo Tribunal Federal estabelece que ela tem caráter orientativo e não determina obrigatoriamente os horários de exibição
O pedido de novo exame existe e já foi usado. As emissoras podem pedir reconsideração da classificação. A Globo fez isso com a novela Quem Ama Cuida, e o ministério negou e manteve a trama em 14 anos. A própria Record pediu, em 2021, que Gênesis caísse de 14 para 10 anos, e o pedido não foi aceito.
Na prática, o selo orienta o horário. Pela Portaria 1.048/2025 do ministério, obras não recomendadas para menores de 12 anos se enquadram na faixa a partir das 20h.
Histórias que a Bíblia conta sem esconder o pecado
Os desenhos contam o que o texto conta. Em 1 Samuel 17:48-51, o pastor Davi derruba o gigante Golias com uma pedra e lhe corta a cabeça. Em Gênesis 37:23-28, os irmãos vendem José a mercadores por vinte peças de prata. Em Gênesis 4:8, Caim mata Abel no campo. Há violência e pecado nessas páginas porque a Bíblia não esconde o pecado humano.
Desenhos bíblicos na Record tinham classificação livre Foto: Reprodução/Record TV Foto: ContraFatos
O mesmo livro que registra a vitória de Davi registra, em 2 Samuel 11 e 12, o adultério e o homicídio do próprio rei, e a repreensão do profeta Natã. A Escritura narra o mal sem maquiagem, e o texto é lido em casa, na igreja e na escola dominical por famílias com crianças.
Jezabel, Gênesis, Paulo e Quem Ama Cuida: o que o ministério já decidiu antes
Não é a primeira obra bíblica da Record a subir de faixa. Em maio de 2019, a série Jezabel passou de livre para 12 anos, segundo o Observatório da TV. O site, citando a coluna de Patrícia Kogut no jornal O Globo, informou que o ministério apontou violência e drogas lícitas.
Em março de 2021, o ministério rejeitou o pedido da Record para rebaixar Gênesis a 10 anos. O órgão alegou “preconceito, banalização da violência e situação sexual de forte impacto”. O texto da decisão foi escrito por Eduardo de Araújo Nepomuceno, o mesmo nome que assina a dos Desenhos Bíblicos.
Em setembro de 2025, o portal NTVB, citando o EPLAY, noticiou que a série Paulo, o Apóstolo passara a inadequada para menores de 16 anos, com drogas lícitas e violência como motivos. A Gazeta do Povo a havia descrito, ao estrear em julho, com classificação livre.
Os critérios não ficaram restritos à Record. Em setembro, o mesmo ministério manteve a novela das nove da Globo em 14 anos, citando drogas lícitas, preconceito, violência e apostas.
Uma pergunta que o caso coloca, e quem responde a ela
O Mercy Herald faz a pergunta que a decisão põe na mesa: o Brasil já vive o começo de uma perseguição e de intolerância religiosa contra cristãos? Os registros acima e os abaixo ficam para o leitor pesar.
O deputado federal Delegado Fabio Costa criticou a decisão e disse que ela atinge um desenho baseado em histórias da Bíblia e voltado ao público infantil. Ele afirmou que vai levar o caso aos órgãos competentes e cobrar explicações do ministério. Para ele, uma decisão semelhante contra uma produção ligada a outra religião provocaria críticas por intolerância. Em sua avaliação, o governo preocupa ao restringir “um desenho bíblico que transmite valores importantes para nossas famílias”.
O debate sobre fé e governo já estava aceso. Em 19 de setembro, em Chapecó, o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, chamou de “ameaça” à liberdade religiosa falas de Lula sobre a Igreja Católica, feitas a pastores no Planalto. Lula respondeu às críticas em 22 de outubro: “ninguém cuidou mais da proteção das igrejas evangélicas no Brasil do que eu”. O teólogo Gilson de Souza, da Comunidade Liberta, disse ao Brasil de Fato que não há perseguição às igrejas evangélicas e que os evangélicos tiveram mais conquistas no governo do PT.
O que a Record pode fazer agora
A Record pode pedir reconsideração ao ministério, o caminho previsto no guia da classificação e usado pela Globo e pela própria emissora em outros casos. O pedido é analisado pela mesma coordenação que assinou a decisão.
Enquanto isso, o bloco segue na grade de domingo, às 9h. O deputado Fabio Costa diz que seu próximo passo é levar o caso aos órgãos competentes.
O Ministério da Justiça mudou o Record Kids: Desenhos Bíblicos de livre para não recomendado para menores de 12 anos, citando atos criminosos, drogas lícitas, violência e estigma ou preconceito.
A decisão foi assinada por Eduardo de Araújo Nepomuceno e publicada no Diário Oficial da União.
A classificação é orientativa e recomenda exibição a partir das 20h na TV aberta.
As emissoras podem pedir reconsideração, como fizeram a Globo e a Record em casos anteriores.
O que ainda não se sabe
Se a Record vai pedir reconsideração e se mudará o horário do bloco.
Quais episódios o ministério analisou para chegar à nova faixa.
A quais órgãos o deputado Fabio Costa levará o caso e que explicações o ministério dará.