Pastor brasileiro liberta mais de 50 escravos no Paquistão Foto: Metrópoles
Em fevereiro de 2025, em Lahore, no Paquistão, o missionário Claudinei Vicente, de São Paulo, assinou um papel que, contou depois, nunca imaginou assinar: o acordo de soltura de uma família cristã presa por dívida a uma olaria. O pagamento foi feito na presença do “ex-dono”, e o missionário diz que recebeu permissão para orar pelos trabalhadores, e também pelo dono da fábrica, que é muçulmano.
Desde 2020, quando começou a atuar no país, Claudinei, hoje com 52 anos, já resgatou mais de 50 pessoas, de 9 famílias diferentes, segundo reportagem do Metrópoles. Os resgates aconteceram em olarias de Lahore, a segunda maior cidade do Paquistão.
O preço da liberdade gira em torno de US$ 3 mil, cerca de R$ 16 mil, e varia conforme o número de pessoas e o tempo que viveram em servidão. O dinheiro vem do Brasil.
Quem negocia, quem paga e o que vem depois
Claudinei faz campanhas de doação por vaquinhas virtuais, e uma equipe no Paquistão negocia diretamente com os donos das olarias. O trabalho é feito em parceria com líderes cristãos locais. Um deles é o pastor Simon Peter Kaleem, que ajudou a batizar as famílias libertas numa piscina improvisada, em março de 2025. “É aqui que tudo termina e recomeça”, disse o missionário aos seguidores, segundo o .
Depois do pagamento, o acompanhamento continua. Segundo o Metrópoles, as famílias recebem moradia e comida por cerca de seis meses, aulas de educação financeira e, em alguns casos, um tuk-tuk, o triciclo motorizado popular na Ásia, para trabalhar por conta própria. A vaquinha “Recomeço” tem meta de R$ 300 mil e mais de 2.700 doações. Em maio de 2026, o Vakinha registrava 99,7% do valor alcançado.
Os números cresceram a cada relato. Em 2024, ele pagou US$ 1.800 pela liberdade de uma família de cinco pessoas. No início de 2025, falou em quatro famílias, depois em cinco. Segundo o Guiame, só em 2025 ele pagou pela libertação de mais de sete. Em agosto, o Metrópoles contava nove.
Dentro de uma olaria, a missão dele, chamada Aonde Deus Mandar, construiu uma escola que também vai abrigar uma igreja. O dono, muçulmano, autorizou que as crianças saiam do trabalho por seis horas para estudar. Para Claudinei, construir isso numa fábrica muçulmana é um verdadeiro milagre.
Uma dívida de poucos dólares que passa de pai para filho
Claudinei explica o mecanismo assim: o que a família ganha num dia não paga a comida do dia, e a diferença vira dívida diária em troca de comida e moradia. Daí a comparação que ele fez ao batizar os libertos: “Ele pagou a dívida”. Muitas famílias caem na armadilha ao aceitar empréstimos dos donos para contas médicas, casamentos, comida ou aluguel. Greg Kelley, da World Mission, contou à Mission Network News ter conhecido gente de segunda e terceira geração nos fornos, cuja escravidão começou numa dívida de talvez 100 dólares, de uma conta médica.
O sistema tem nome local, peshgi: o adiantamento em dinheiro que o dono do forno dá ao trabalhador. Um estudo de campo do centro CenHTRO aponta mais de 20 mil fornos no país, com mais de 4,5 milhões de trabalhadores, dos quais mais de 90% teriam recebido um peshgi. Outra estimativa, citada pela UCA News a partir do Pulitzer Center, vai de 3,5 a 5 milhões de trabalhadores. Um estudo publicado pela OIT documenta como adiantamentos e trabalho de toda a família reforçam essa dependência.
O Global Slavery Index 2023, da Walk Free, estimou 10,6 pessoas em escravidão moderna a cada mil habitantes do Paquistão em 2021, ou 2.349.000 pessoas, entre trabalho forçado, casamento forçado e outras formas.
A Bíblia conhece essa engrenagem. Em Neemias 5:1-5, israelitas hipotecam campos e entregam filhos e filhas como escravos para pagar dívidas, e Neemias exige a devolução. Provérbios 22:7 diz que quem toma emprestado é servo de quem empresta. E Levítico 25:47-55 prevê o resgate, pago por um parente, de quem se vendeu por dívida.
O que a lei diz, e o que acontece nas olarias
No papel, a servidão por dívida acabou em 1992. A Lei de Abolição do Sistema de Trabalho Servil invalida qualquer acordo de peshgi e encerra as dívidas servis passadas. Em 2013, a Suprema Corte proibiu os donos de olaria de dar empréstimos acima de 15 dias de salário. Os donos tentaram barrar a lei no Tribunal Shariat, pedindo que trechos fossem declarados anti-islâmicos, e fracassaram.
Na prática, segundo o HuffPost, a lei raramente é aplicada, porque cidades e vilarejos dependem dos fornos para sobreviver. Meher Sader Ali, da Frente de Libertação do Trabalho Servil, disse à UCA News que os donos são senhores feudais e que muitos juízes e policiais servem a seus interesses. No debate de novembro de 2025 no Parlamento britânico, deputados disseram que três décadas depois da lei a fiscalização parece “sporadic and ineffective”, esporádica e ineficaz.
Em março de 2025, o Paquistão ratificou o Protocolo de 2014 à Convenção sobre Trabalho Forçado, e o diretor do escritório da OIT no país chamou o ato de “histórico”. Foi a primeira ratificação de uma norma da OIT desde 2006. O escritório Paul Hastings observa que ainda não há legislação interna correspondente.
Cristãos entre os tijolos
Os cristãos são 1,8% da população paquistanesa, segundo a Open Doors. Mas aparecem em peso nos fornos. Segundo a UCA News, cerca de 60% dos trabalhadores de olarias na província de Punjab são cristãos. No Parlamento britânico, foram citados cristãos, hindus de casta baixa e muçulmanos xeiques entre os grupos presos aos fornos.
A Open Doors colocou o Paquistão em 8º lugar na Lista Mundial da Perseguição 2026, com 87 pontos de 100. Para a organização, os cristãos do país enfrentam discriminação sistêmica, violência, conversões forçadas e trabalho servil, com pouca proteção do Estado. Um relatório do grupo parlamentar britânico sobre as minorias do Paquistão descreve a servidão por dívida como produto da pobreza e da marginalização social.
Claudinei conta que, apesar de os donos das olarias serem muçulmanos, as famílias cristãs escravizadas têm permissão para cultuar e, sem templo, se reúnem ao ar livre para adorar a Deus.
O homem dos búfalos e a volta marcada
Há uma segunda forma de servidão que o missionário diz ter descoberto: a do campo. Em 2025, conheceu um homem que, havia 31 anos, cuidava de búfalos numa área rural, só em troca de comida. Segundo o relato ao Guiame, trabalhava 22 horas por dia sob calor de 50 graus e “dormia no curral”. Tinha meio dia a cada quinze dias para ver a família, e a esposa e um filho estavam doentes.
A missão pagou a liberdade dele. Meses depois, num casamento, Claudinei não o reconheceu: parecia 15 anos mais novo. O homem e a família o abraçaram e choraram.
No campo, afirma o missionário, o resgate é muito mais difícil. Os donos não querem perder quem trabalha para eles e alguns, diz ele, são ligados à máfia. O risco é grande, ele admite, mas não vai parar: “É muito arriscado, mas a gente vai tentando. Em breve voltarei lá para continuar esse trabalho.”