Ainda sem comprovaçãoAssunto em investigação. Mostramos o que já se sabe e o que ainda falta provar.
A escavação de Kayalıpınar, na província de Sivas, no centro da Turquia, soma agora 184 tabuinhas e fragmentos de argila com escrita cuneiforme. A equipe os trata como um arquivo real hitita de cerca de 3.400 anos. A campanha de 2026, conduzida pela Koç University com o Ministério da Cultura e Turismo, recuperou 131 peças e, com o material de campanhas anteriores, o total chega a 184. As 53 peças achadas no mesmo local em 2025 são consideradas parte do mesmo arquivo.
O tamanho real da notícia: é um achado de escavação, anunciado em 8 de outubro de 2026 pelo ministro Mehmet Nuri Ersoy e detalhado em comunicado do ministério. Não é um estudo revisado por pares, nem uma edição dos textos. Os pesquisadores ainda estão traduzindo as tabuinhas. O conteúdo descrito abaixo vem, portanto, do comunicado oficial e de resumos da imprensa, não de transliterações publicadas.
Epidemia entre as crianças, uma princesa bebê e generais pedindo carros de guerra
Os textos estão em hitita e em hurrita, e abrangem divinação, augúrio, cartas, rituais e orações. Os documentos mais comentados tratam de uma doença de febre alta que passou de cidade em cidade e atingiu sobretudo bebês e crianças. Segundo o ministério, adivinhos acompanhavam por consultas oraculares a saúde de príncipes e princesas e também de filhos de altos funcionários.
Um grupo de tabuinhas gira em torno de uma princesa ainda amamentada, cuja doença e morte aparecem nos registros. Uma tabuinha enviada por um adivinho ao rei diz que ela adoeceu em Ziulila, cidade cuja localização é desconhecida. Outra registra a morte e o ritual fúnebre. A princesa não tem nome nas descrições publicadas até agora, e é preciso lembrar que essas descrições são resumos, não traduções completas.
Outro texto é uma carta urgente de generais hititas no oeste da Anatólia ao rei, que estava em Šamuḫa. Os generais dizem que o território está cercado por inimigos e pedem soldados, cavalos e carros de guerra, sob pena de o exército ser destruído. Eles acrescentam que não assumem a responsabilidade pelas consequências se a ajuda não vier. O Anatolian Archaeology observa que o inimigo ainda não foi identificado.
Uma terceira tabuinha tem forma de diário. Ela anota tipos e rotas de aves observadas, junto com as cidades onde os adivinhos pousaram, e o ministério compara as entradas a um diário. O texto traz sinais e presságios de augúrio que eram desconhecidos. Em 2025, a escavação já tinha achado uma pequena tabuinha de presságios de aves, inteira, com um furo no centro e marcas de cordão. A diretora, Çiğdem Maner, disse na época que ela pode ter sido pendurada ou usada no pescoço, segundo a Arkeonews.
Tabuinha cuneiforme hitita de roteiro de festival de culto, de Hattusa, exposta no Instituto Oriental de Chicago. Não pertence ao arquivo de Kayalıpınar. Foto: Mx. Granger, CC0, Wikimedia Commons
Šamuḫa: o santuário da deusa que virou base militar do rei
Kayalıpınar fica sobre a antiga Šamuḫa, cidade que é amplamente identificada com o sítio. A identificação nem sempre foi firme. Durante décadas, estudiosos discutiram se Šamuḫa ficava no Eufrates ou no rio Kızılırmak, o antigo Halys. As tabuinhas de Kayalıpınar reforçaram muito a ligação do sítio com Šamuḫa, segundo a Wikipédia, que resume a bibliografia do tema.
A cidade era um centro religioso. O estudioso René Lebrun a chamou, em 1976, de “foyer religioso” do Império Hitita. Lá se cultuava a deusa Šauška, ligada ao amor e à guerra, e a divindade local era conhecida como a Ishtar de Šamuḫa. Segundo a Wikipédia, o rei Mursili II nomeou seu filho mais novo, o futuro Hattusili III, sacerdote dela. Antes dos hititas, o lugar já abrigava um entreposto de comerciantes assírios.
No século 14 a.C., a situação mudou. A National Geographic descreve Šamuḫa como um centro religioso e comercial que se tornou capital militar no tempo de Tudhaliya, quando os povos montanheses kaska atacavam cidades hititas. É esse pano de fundo que dá sentido à carta dos generais e ao tom de crise do arquivo.
O sítio rende tabuinhas há mais de vinte anos. O primeiro fragmento apareceu em 1999. A escavação sistemática começou em 2004, sob Andreas Müller-Karpe. Mais de cem tabuinhas, em sua maioria rituais, festivais, inventários de culto e oráculos, surgiram em 2015. Desde 2021, a equipe de Maner, da Koç University, escava o local. Segundo o The Debrief, já saíram mais de 50 impressões de selos de realeza, sacerdotes e administradores. A equipe suspeita que um edifício de selagem de documentos esteja sob camadas com sepultamentos dos primeiros cristãos, que estão sendo removidos com cuidado.
Como se data uma tabuinha hitita, e o que o comunicado não explica
O ministério e a imprensa dizem que as peças são do reinado de Tudhaliya II, cerca de 3.400 anos atrás. Nenhum dos textos que li explica o método, e nenhum menciona datação por radiocarbono. Em geral, hititólogos combinam três coisas: nomes de reis e de pessoas no texto, a forma dos sinais cuneiformes (paleografia) e a camada da escavação em que as peças foram achadas. Essa lista descreve a prática da área, não um relato do que esta equipe fez.
Um dado ajuda. Maner disse que nomes de reis aparecem nas tabuinhas de presságios. Há também uma ressalva de numeração: o rei às vezes chamado de Tudhaliya III é designado por alguns autores como Tudhaliya II. O rótulo “Tudhaliya II” depende, portanto, de quem numera, e o intervalo provável gira em torno de 1400 a.C. A confirmação virá quando os especialistas publicarem as transliterações e outros hititólogos puderem checar nomes e sinais.
O “maior arquivo do século 21” é uma avaliação da equipe, não um recorde medido
A equipe considera o conjunto o mais extenso arquivo em língua hitita descoberto no século 21 e uma das mais importantes concentrações de documentos hititas fora de Hattusa. A frase vale como avaliação dos escavadores, e três pontos pedem cautela.
Primeiro, a escala. Há mais de 30 mil tabuinhas e fragmentos hititas conhecidos, achados em dois séculos de escavações. Só o arquivo de Boğazköy, a antiga Hattusa, tem cerca de 25 mil. O Edifício A de Şapinuwa rendeu cerca de 5 mil tabuinhas e fragmentos da época de Tudhaliya. A Wikipédia nota que a maioria é fragmentária e que o arquivo não estava publicado em 2014. Que 184 peças sejam o “mais extenso” depende de como se conta um arquivo e de quando se considera que ele foi descoberto. Não encontrei hititólogo independente que tenha avaliado a frase.
Segundo, a contagem. O número 184 reúne duas campanhas, e uma delas tem números divergentes. Em 2025, a imprensa falou em 56 tabuinhas e 22 impressões de selo, enquanto o ministério agora usa 53 como parte do arquivo. Pode ser reclassificação de peças, mas a diferença não foi explicada.
Terceiro, a Bíblia. Nas redes circularam mensagens de que o achado desmentiria quem duvidava da existência dos hititas. A tese tem história: estudiosos dos séculos 19 e início do 20 chegaram a discutir se os hititas existiram, pois a Bíblia era a principal fonte conhecida. Mas essa dúvida foi resolvida há mais de um século. Os arquivos de Boğazköy foram descobertos em 1906. As tabuinhas de Kayalıpınar não mencionam Israel, a Bíblia ou personagens bíblicos, até onde se sabe.
Os hititas de Efrom e de Urias: a ligação com a Bíblia é indireta
A Bíblia cita os hititas em lugares-chave, conforme lista a Biblical Archaeology Society. Em Gênesis 23, Efrom, o hitita, vende a Abraão o campo e a caverna de Macpela, perto de Hebrom, como sepultura da família. Em Gênesis 26:34, Esaú se casa com mulheres hititas. Davi manda matar Urias, o hitita, em 2 Samuel 11, para ficar com a esposa dele. Salomão tem mulheres hititas, em 1 Reis 10:29 a 11:2, e Ezequiel 16:3 usa a imagem de uma mãe hitita contra Jerusalém. Em Gênesis 10:15, Hete aparece entre os filhos de Canaã.
O problema é que o Império Hitita da Anatólia e os “filhos de Hete” de Canaã nem sempre coincidem. Essa é a discussão central. A BAS resume a posição comum: o registro arqueológico mostra os hititas originais, de Hattusa, e a Bíblia fala sobretudo dos neo-hititas, povos de estados do norte da Síria que mantiveram a cultura depois do colapso do reino, por volta do século 12 a.C. A revista nota que a maioria dos estudiosos acredita que as narrativas dos patriarcas foram escritas séculos depois dos fatos, com anacronismos. Isso explicaria por que os hititas aparecem em tempos mais antigos. Quem lê os textos de modo mais tradicional pode preferir outra leitura e ver populações reais do segundo milênio. O debate não depende de Kayalıpınar.
Há um paralelo curioso, que ainda não é prova de coisa alguma. O Armstrong Institute of Biblical Archaeology, ligado a uma igreja e que celebra o achado, lembra que Tudhaliya foi nome de vários reis hititas e sugere uma relação com “Tidal, rei de Goim”, de Gênesis 14:1, como uma espécie de “proto-Tudhaliya”. É uma interpretação de um grupo, e não consenso entre hititólogos. Outro paralelo, mais simples: a carta dos generais pede cavalos e carros de guerra, e 1 Reis 10:29 mostra reis hititas comprando carros de Salomão, enquanto 2 Reis 7:6 fala de um rumor de carros e cavalos atribuído aos “reis dos hititas”. Isso reflete a fama militar da região, e não uma ligação entre os textos.
A distância no tempo também conta. Tudhaliya II governou por volta de 1400 a.C. Davi e Urias vivem cerca de quatro séculos depois, na cronologia mais comum. O arquivo ajuda a entender o mundo dos hititas, não o de Urias.
Presságios de aves: o que a corte hitita praticava e o que a Bíblia proíbe
O ponto de contato mais claro com o texto bíblico talvez seja a adivinhação. A corte hitita registrava com cuidado presságios de aves, e as tabuinhas mostram que a política e a saúde da família real passavam por esses oráculos. Maner disse que as tabuinhas indicam que a continuidade do reino hitita era determinada pela adivinhação com aves. Ela afirmou também que o local achado é onde essa adivinhação era feita ou arquivada.
A Bíblia pertence a outro mundo religioso e proíbe práticas desse tipo. Levítico 19:26 e Deuteronômio 18:10-12 condenam a adivinhação e a leitura de presságios entre o povo de Israel. Esses textos não citam os hititas, mas mostram o contraste entre o que a lei israelita pedia e o que cortes vizinhas faziam com naturalidade. O arquivo deve ajudar a entender como os oráculos funcionavam na prática e, com isso, o ambiente cultural de onde Israel se distingue.
Para o leitor de fé, o ganho é histórico, não doutrinário. As tabuinhas não provam nem refutam a Bíblia. Elas mostram, em linguagem direta, pessoas reais que temiam pela doença dos filhos e pediam socorro ao rei. Quando as transliterações saírem, será possível verificar com mais calma o que o comunicado resumiu.
A campanha de 2026 em Kayalıpınar, escavada pela Koç University, recuperou 131 tabuinhas e fragmentos, e o ministério turco fala em 184 com as 53 de 2025.
Os textos estão em hitita e hurrita e, segundo o ministério, tratam de divinação, cartas, rituais e orações.
O ministério descreve uma epidemia de febre, a morte de uma princesa bebê, uma carta de generais pedindo reforços e um diário de adivinhos de aves.
Kayalıpınar é identificada com a antiga Šamuḫa, centro religioso e base militar hitita.
O que ainda não se sabe
Os textos ainda não foram publicados, e as descrições vêm do comunicado oficial, não de traduções completas.
Nenhum hititólogo independente comentou publicamente a frase de “maior arquivo hitita do século 21”.
O método exato de datação no reinado de Tudhaliya II não foi detalhado.
Não se sabe se os hititas citados na Bíblia têm relação com o povo das tabuinhas, e nada nelas menciona Israel.