Nigéria: Intersociety contabiliza 3.083 cristãos mortos em 8 meses de 2026; Portas Abertas aponta 3.490 em um ano
Relatório de 6 de setembro cobre janeiro a agosto; governo nega motivação religiosa e a soma não fecha. Em outubro, ataques seguem em Plateau e Kaduna.
A organização nigeriana Intersociety afirma, em relatório de 6 de setembro de 2026, que 3.083 cristãos foram mortos e 3.193 sequestrados na Nigéria entre janeiro e agosto. O relatório, assinado em Enugu pelo pesquisador Emeka Umeagbalasi, atribui os ataques a grupos jihadistas e fala em 400 igrejas atacadas e 25 pastores e padres mortos ou sequestrados. A Catholic World Report publicou a notícia em 8 de setembro.
É a contagem de uma entidade de defesa de direitos, não um número oficial, e este jornal não encontrou confirmação independente do total. O governo do presidente Bola Tinubu rejeita qualquer motivação religiosa e trata os assassinatos como banditismo e criminalidade que atingem também muçulmanos, segundo o Washington Times. Os ataques de setembro e outubro descritos abaixo, com aldeia, data e a fonte de cada número, foram relatados por moradores e pela imprensa cristã.
O que o relatório afirma e como se compara a outras contagens
Como referência, a Portas Abertas (Open Doors) contou 3.490 cristãos mortos na Nigéria por causa da fé entre 1.º de outubro de 2024 e 30 de setembro de 2025, 72% dos 4.849 mortos no mundo no período. Os dois números não se comparam diretamente: um cobre oito meses de 2026, o outro doze meses anteriores. Como lembra a análise da Freethinkers International, o dado da Portas Abertas é classificação e estimativa da própria organização, não um total nacional verificado de forma independente.
A Intersociety diz restringir a contagem a ataques de motivação religiosa de grupos que chama de jihadistas. Afirma que criadores de gado fulani e bandidos fulani armados responderam por ao menos 90% dos ataques de julho e agosto, versão que, segundo o texto, moradores e sobreviventes corroboraram. O resumo vai além e atribui a ajuda de “agentes armados do Estado” e de uma “agenda de islamização do governo”, acusação que Abuja nega e para a qual o documento de cinco páginas não apresenta provas. Os incidentes de agosto vêm, em parte, de reportagens da Morning Star News e da Barnabas Aid; a lista completa está em arquivo separado, de 5 de setembro, que este jornal não conferiu caso a caso.
A contagem de agosto inclui 35 mortes que a própria entidade acrescentou como estimativa, as chamadas “cifras ocultas”, ligadas aos 180 sequestrados do mês que, segundo ela, dificilmente voltam vivos. Para os sequestros, a organização somou outras 30 pessoas pelo mesmo critério. Pelo relatório, julho teve 299 mortos e agosto, 138, o que dá 437 nos dois meses.
Há ainda uma inconsistência aritmética. O título do resumo traz 3.083 mortos, o corpo do texto traz “3.183”, e as parcelas citadas pelo próprio relatório somam 2.987, não 3.083: 2.550 de janeiro a junho e 437 em julho e agosto, conta feita por este jornal. Nos sequestrados os números fecham, pois 2.800 mais 393 dá 3.193. O documento que analisamos não explica a diferença.
Os críticos pedem cautela com os totais
Em análise de 28 de outubro, a organização secular Freethinkers International lembra que “cristãos mortos em violência” não é o mesmo que “cristãos mortos por serem cristãos”, que períodos diferentes não se somam e que várias organizações repetindo um número não equivalem a várias investigações. O texto cita ainda que a agência de asilo da União Europeia (EUAA) registrou uma estimativa da Intersociety para parte de 2025 ressalvando que ela não pôde ser corroborada por outras fontes. Outro banco de dados, do Observatório de Liberdade Religiosa na África (ORFA), registra 42.033 civis mortos entre outubro de 2019 e setembro de 2025: 22.835 cristãos, 10.519 muçulmanos, 184 adeptos de religiões tradicionais africanas e 8.495 de religião desconhecida. A Freethinkers diz ter conferido os números com o ORFA, mas não auditou os registros.
Outubro: seis mortos em Plateau, sequestros em Kaduna e igreja incendiada em Adamawa
Os ataques mais recentes que este jornal conseguiu confirmar em fontes publicadas são de setembro e começo de outubro. Foram reunidos pela Morning Star News, agência de notícias cristã dos Estados Unidos, com base em testemunhos de moradores e líderes comunitários.
No condado de Barkin Ladi, no estado de Plateau, pistoleiros fulani mataram ao menos 12 cristãos em três dias, no fim de setembro. Em 3 e 4 de outubro, seis cristãos foram mortos no estado de Plateau: quatro no condado de Riyom, no sábado, e dois em Bokkos, no domingo. Em Wereng, morreram Joel Bwede, 39 anos, e Justice Dadong, 22, segundo um morador. Em 6 de outubro, outra aldeia de Riyom, Jol, foi atacada por volta das 21h, quando os moradores dormiam, sem balanço divulgado na reportagem. A Christian Daily International identifica os agressores como fulani, segundo os moradores, e não traz resposta das autoridades estaduais.
Em Kaduna, um cristão foi morto e vários foram sequestrados, entre eles um menino de 9 anos, em 1.º de outubro, na aldeia de Ungwan Waziri; os suspeitos são criadores de gado fulani. Em 6 de outubro, invasores levaram cinco cristãos de casas em Millennium City, entre eles uma gestante e uma mulher com um bebê de 6 meses. Segundo a Alabama Baptist, que reproduz a Morning Star, uma fonte disse que os captores pediam US$ 263.000 por três reféns da mesma família.
No mesmo dia, em Sokoto, Lydia Nwankwo, voluntária da Cruz Vermelha, foi morta a tiros em 6 de outubro, quando homens armados atiraram contra um veículo da Cruz Vermelha nigeriana na estrada Kajiji-Shagari; um morador descreveu os autores como “jihadistas muçulmanos”. Em 8 de outubro, em Adamawa, um cristão foi morto quando suspeitos do Boko Haram e do ISWAP, a Província do Estado Islâmico na África Ocidental, atacaram três aldeias, e uma igreja foi incendiada, de acordo com a mesma publicação. Em novembro de 2025, depois que Donald Trump designou a Nigéria “país de particular preocupação”, Tinubu respondeu que o governo protege cidadãos de todas as fés. O ministro da Informação, Mohammed Idris, acusou parlamentares americanos de se basearem em “dados imprecisos e enganosos”. O relator especial da ONU para liberdade de religião, segundo o Washington Times, reconhece em parte a leitura do governo ao notar uma mistura complexa de fatores, sem negar o impacto desproporcional sobre cristãos em certas regiões. Em 8 de junho, peritos da ONU alertaram para violações contra mulheres e meninas cristãs, citando a sharia em 12 estados do norte e as leis de blasfêmia, de acordo com a Catholic World Report.
A divergência aparece em casos concretos. Em 3 de agosto, quatro cristãos foram mortos e 12 feridos em Abaushwa, no condado de Guma, em Benue. Uma sobrevivente, Cecilia Vande, disse à Barnabas Aid que os atacantes gritavam “Allahu Akbar”. O porta-voz da polícia estadual, DSP Orchia Peter Aondona, falou ao Truth Nigeria, site cristão, em ataque de “bandidos armados” e disse que as investigações buscam identificar e prender os responsáveis. A polícia de Benue chamou de “bandidos armados” os autores de um ataque em que uma sobrevivente disse ter ouvido “Allahu Akbar”.
Muçulmanos também são vítimas. O ataque de 3 de fevereiro às aldeias de Woro e Nuku, no estado de Kwara, matou ao menos 162 moradores, entre eles o imã-chefe de Woro, segundo a Wikipédia, que o descreve como indiscriminado. Em 26 de outubro, o pregador islâmico Yahaya Masussuka e um amigo foram mortos a tiros em Dutsin-Ma, em Katsina, e Tinubu mandou a polícia e outras agências intensificarem a busca pelos responsáveis.
Quem ataca: milícias fulani no Cinturão Médio, Boko Haram e ISWAP no nordeste
A Intersociety e o ORFA apontam como principal autor, no Cinturão Médio e no noroeste, milícias de maioria muçulmana da etnia fulani. O ORFA atribui a elas grande parte das mortes de civis cristãos, em ataques noturnos a aldeias agrícolas e sequestros de fiéis em igrejas. Os fulani somam milhões de pessoas no Sahel, e só parte dos fulani adere à ideologia radical, como nota um relatório de 2020 do grupo parlamentar britânico APPG, citado pela Morning Star. No nordeste, o Boko Haram, que desde 2009 prega um califado, e o ISWAP têm projeto islamista explícito, e suas vítimas incluem também muçulmanos, observa a Freethinkers.
Sobre o motivo, líderes cristãos nigerianos dizem acreditar que os ataques no Cinturão Médio buscam tomar terras e impor o islã, já que a desertificação dificultou a criação de rebanhos. O bispo de Makurdi, Wilfred Chikpa Anagbe, cuja diocese fica em Benue, chama o que ocorre de genocídio. A Freethinkers responde que religião e recursos não são explicações concorrentes, mas que, com as provas revistas, não pode apresentar um genocídio nacional contra cristãos como fato estabelecido, sem negar a possibilidade de intenção em campanhas locais.
O caso mais lembrado é o de Yelwata, em Benue, em junho de 2025. A Human Rights Watch registrou 59 mortos segundo o governo estadual, mas notou que moradores entregaram lista com mais de 100 supostas vítimas. Segundo a Freethinkers, a Anistia citou mais de 100 e a Portas Abertas, mais de 200. A diferença entre 59 e mais de 200 mortos no mesmo massacre mostra como é difícil fechar totais.
Em Naridon, em 26 de julho, 30 cristãos foram mortos, 11 deles crianças. O ataque, perto da meia-noite, no condado de Kauru, em Kaduna, é atribuído a suspeitos de milícia fulani; a imprensa local contou 21 católicos e nove membros da ECWA entre os mortos. Tinubu disse ter mandado as Forças Armadas, a polícia e a inteligência intensificarem operações para prender os autores e libertar os sequestrados.
Em novembro de 2025, o papa Leão XIV reconheceu que “cristãos e muçulmanos foram massacrados” na Nigéria e pediu ao governo liberdade religiosa genuína. A Carta aos Hebreus pede aos cristãos que se lembrem dos maltratados como se sofressem com eles (Hebreus 13:3).